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Os pagamentos no WhatsApp são uma ameaça ao Pix?

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Imagem: Leonidas Santana/Shutterstock

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Postado em 15/07/2021 por Sistema Plug

Em maio deste ano, o WhatsApp anunciou o início de um novo serviço de pagamento dentro do próprio aplicativo. Agora os usuários podem transferir dinheiro para seus contatos como quem compartilha uma imagem ou um áudio. A novidade vem cerca de cinco meses após o lançamento do Pix, que também tem como chamariz a praticidade e simplicidade das transferências. O que poderia dar errado?

Apesar das soluções serem similares, há algumas diferenças importantes no modo como elas podem ser adotadas pelo público. No caso do Pix, temos como avaliar o impacto por meio das estatísticas liberadas pelo Banco Central. Até o final de maio, mais de 250 milhões de chaves haviam sido registradas na plataforma — um número maior que a população brasileira, visto que cada pessoa pode ter até quatro chaves.

Em compensação, se pensarmos no potencial de uso da nova ferramenta do WhatsApp, os números também são fortes. Segundo uma pesquisa da Opinion Box, divulgada em janeiro de 2021, 98% das pessoas que possuem smartphone têm o app de mensagens instalado, das quais 86% o utilizam todos os dias. Ou seja, a capacidade de atingir a maioria dos brasileiros é concreta.

O que não quer dizer, é claro, que todos que usam o WhatsApp vão aderir ao sistema de pagamentos. É importante lembrar que a novidade surge em um momento complicado para a imagem da empresa; há poucos meses, muitas discussões sobre a segurança do aplicativo foram levantadas. O que, inclusive, levou muitas pessoas a migrarem para outras alternativas, como o Telegram (que já possui um sistema de pagamentos e vem expandindo as operações recentemente). Para completar, o serviço de pagamentos já havia passado por uma tentativa de lançamento em 2020, mas foi barrado pelo Banco Central para análise. Portanto, é natural que o público se sinta receoso de envolver dinheiro na relação com seu app mensageiro favorito.

Por sua vez, o WhatsApp está deixando claro todo esforço para manter a segurança das transações. Além da criptografia de ponta, a ferramenta exige a criação de senha e pode utilizar biometria. Os pagamentos são processados pelo Facebook Pay, autorizado pelo Banco Central, onde o acesso é limitado e monitorado. As operações são limitadas — até R$ 1 mil por transferência, máximo de 20 transações por dia e de R$ 5 mil ao mês — e a abrangência do sistema está crescendo aos poucos. Dessa forma, é possível acompanhar com mais cuidado a evolução e possíveis falhas.

Com tudo isso em mente, é seguro imaginar que ainda levará um tempo até que os pagamentos via WhatsApp se tornem corriqueiros, mas acredito que é uma forte possibilidade. O que nos leva à pergunta: isso vai ameaçar o Pix?

Considerando o crescimento constante de usuários com chaves cadastradas e a implementação prévia do Pix, com um lançamento bem estruturado e sem quaisquer transtornos (como foi o caso do WhatsApp), acho improvável que as pessoas o abandonem.


O que eu acredito, mesmo, é que as duas tecnologias vão coexistir.

Talvez as pessoas prefiram utilizar o WhatsApp para pagamentos menores, informais, e o Pix para grandes transações e uso comercial. Talvez os dois sejam usados das duas maneiras, de forma alternada. O ponto é que um não vai ser um obstáculo tão grande assim para o outro.

O que não se pode esquecer é que um lado está mais fragilizado. O WhatsApp tem capacidade de se tornar tão popular quanto o Pix, desde que não enfrente novamente polêmicas sobre segurança e privacidade, e consiga cuidar bem dos imprevistos que vierem a acontecer.

Vale lembrar que nem todos os bancos são parceiros da plataforma e a criação de novas parcerias também vai depender da repercussão. Enquanto isso, o Pix é do próprio Banco Central e contou com o apoio de todas as grandes instituições financeiras para introduzir e explicar seu uso para a população. Nessa corrida, há potencial para ambos, mas o perigo de ficar para trás pode ser maior para o WhatsApp.

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*André Palis, colunista do TecMundo, trabalhava no Google antes de empreender. Fundou a Raccoon em 2013, em São Carlos, importante polo de tecnologia do Estado de São Paulo, e em 8 anos adquiriu a carteira de grandes players do mercado, como Vivara, Natura, Leroy Merlin e Nubank. Em 2013, notou um gap no mercado digital, pediu demissão da Google e, ao lado de Marco Túlio Kehdi, fundou a Raccoon, uma agência full service que atua como parceira estratégica em toda a cadeia digital. Em 2021, a Raccoon passou por um processo de fusão e agora faz parte da holding global S4 Capital.