Quem foi Tiradentes e por que 21 de abril é feriado no Brasil

Publicado em 21/04/2026 por Rádio Estação FM

Brasil e Mundo

Data marca dia em que mártir da Inconfidência Mineira foi executado no Rio de Janeiro, em 1792.

Fonte: Museu Paulista/USP

Nesta terça-feira, dia 21 de abril de 2026, o Brasil para — ao menos oficialmente — para lembrar um personagem do fim do período colonial: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A data marca o dia em que ele foi executado no Rio de Janeiro, em 1792, condenado por participação na Inconfidência Mineira, movimento que articulava romper com a Coroa portuguesa em meio a uma crise de impostos e controle sobre a mineração em Minas Gerais.

A pergunta que sempre volta em todo 21 de abril é simples e direta: o que, exatamente, se comemora? E, ainda mais importante para entender o feriado: quando e por que o Estado brasileiro decidiu transformar Tiradentes em símbolo nacional?

Quem foi Tiradentes — e em que Brasil ele viveu

Tiradentes nasceu em 1746, na região de Minas Gerais, numa época em que o Brasil era colônia de Portugal. Ganhou o apelido por atuar também como “tirador de dentes”, um ofício prático e comum no século XVIII, exercido por quem dominava técnicas rudimentares de extração e tratamento. Além disso, teve outras ocupações e circulou por estradas e vilas, o que ajudou a formar sua rede de contatos.

Ele também foi alferes (um posto militar da época) e viveu num momento em que Minas enfrentava o esgotamento progressivo do ouro e a intensificação da cobrança de tributos pela Coroa. A tensão crescia em torno do medo da derrama, mecanismo de cobrança forçada quando a arrecadação de impostos não atingia o que Portugal exigia.

É nesse cenário que surge, em 1789, a Inconfidência Mineira — uma conspiração de setores da elite local (militares, proprietários, padres e letrados) que discutia a independência e a criação de uma nova ordem política. O movimento foi delatado, os envolvidos foram presos e o caso se arrastou por um processo longo. Ao final, Tiradentes foi o único a receber a pena máxima: morte por enforcamento, seguida de esquartejamento como punição exemplar, prática de intimidação típica do Antigo Regime.

Por que Tiradentes virou herói (e por que isso importa hoje)

A execução, por si, não explica a transformação de Tiradentes em mártir cívico. Essa virada ocorre, sobretudo, no Brasil republicano. Após a Proclamação da República, o novo regime buscou símbolos fundadores diferentes dos do Império. Tiradentes, um condenado pela monarquia portuguesa, passou a funcionar como personagem conveniente para representar a ideia de liberdade e ruptura com o passado colonial.

A própria imagem do personagem foi sendo moldada ao longo do tempo, em pinturas, livros e cerimônias, muitas vezes destacando traços de martírio e sacrifício. Ou seja: o feriado não é apenas sobre o homem, mas também sobre como o país escolheu contar a sua história.

Quando o feriado foi instituído — e o que a lei diz

Do ponto de vista legal, o 21 de abril aparece como feriado nacional em normas que variaram com o tempo. Um marco objetivo, com texto oficial, está na Lei nº 1.266, de 8 de dezembro de 1950, que estabeleceu:

“É feriado nacional o dia 21 de abril, consagrado à glorificação de Tiradentes e anseios de independência do País e liberdade individual”.

Mais tarde, outra lei reforçou o lugar de Tiradentes no panteão cívico: a Lei nº 4.897, de 9 de dezembro de 1965, que também o consagrou como Patrono Cívico da Nação Brasileira. E, no reordenamento dos feriados nacionais, o dia voltou a constar expressamente na lista definida pela Lei nº 10.607, de 19 de dezembro de 2002, que organiza os feriados civis do país.

Em síntese, o feriado existe para marcar a morte de Tiradentes (1792), mas a sua institucionalização e a força simbólica que ele ganhou são resultado de decisões políticas e culturais tomadas principalmente a partir da República, com reforços posteriores em leis do século XX e XXI.

O que 21 de abril representa

No calendário, o 21 de abril é apresentado como uma data de exaltação cívica. Na prática, funciona como um lembrete de três coisas:

  • 1) o Brasil foi colônia e viveu sob forte controle fiscal e político;
  • 2) houve movimentos e conspirações contra esse controle, ainda que com contradições internas;
  • 3) as nações escolhem seus heróis — e, ao escolhê-los, também escolhem uma narrativa sobre si mesmas.